Ricardo S. Amorim

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Entrevista Ricardo S. Amorim

Por: Ligia Ferreira

Hintf: Obrigada pela entrevista, com que idade soubeste que querias ser escritor?

Obrigado eu pelo interesse e pela divulgação. Não tive um momento de epifania, passado o qual soube que queria ser escritor, tão-pouco me considero como tal. Sim, escrevi um livro mas tenho reservas quanto a considerar-me um escritor, até porque essa não é a minha actividade profissional principal. Desde muito novo que gosto de ler e de escrever, e percebi que pela palavra escrita me conseguia expressar de uma forma mais plena, que a minha timidez não permitia de outra forma. De todo o modo, seria apenas uma ilusão pois os meus textos seriam pouco inteligíveis para qualquer leitor que não eu próprio, e foi precisa muita página rasgada até conseguir transmitir alguma coisa por essa via.

Hintf: O que te inspirou?

Desde que aprendi a ler, em criança, que me foram incutidos hábitos de leitura e os livros tornaram-se no meu escape, na minha zona de conforto em que me podia abstrair do mundo, que nem sempre é amigável. O gosto pela escrita é, para mim, mais uma manifestação da paixão pela leitura e pelos livros, embora nunca tenha escrito ficção, que leio desde sempre. A minha experiência começou quando a associei a uma outra paixão, que é a música. A música tornou-se central na minha vida e ouvi-la não era suficiente para mim. Tinha de ler as letras, interpretá-las, conhecer as inquietações e motivações que as fizeram nascer, o processo criativo e tudo o que está para além do que os nossos ouvidos percepcionam. Daí, quando surgiu a oportunidade de começar a escrever sobre a música de que gostava, achei ter encontrado o campo em que poderia expressar-me.

Hintf: “Lobos que Foram Homens”, como surgiu a ideia para esta obra, já eras fã de Moonspell ?

A ideia surgiu de uma forma bastante espontânea. O Fernando lançou-me o desafio, eu aceitei e meti mãos à obra. Conheço Moonspell desde 1994, pois as origens da banda e o impacto que começaram a ter no underground nacional e europeu coincidem com o meu próprio envolvimento e interesse no underground. Era fã de Moonspell mas não segui todas as suas fases com o mesmo entusiasmo que aquele período inicial em meados dos anos 90, pois os meus interesses musicais foram variando muito. Mas sempre acompanhei o que iam fazendo e respeitei a carreira que foram construindo. Na verdade, acho que há muito poucas bandas das quais sou mesmo fã, seguidor de tudo o que fazem, defensor acérrimo de todos os seus períodos. Isto para dizer que a questão de não ser, propriamente, um fã – e aqui utilizo a expressão como abreviatura de “fanático” – me ajudou a escrever, levou a que eles tivessem mais confiança no meu trabalho e na minha imparcialidade, e no fundo tornou o livro melhor. Não queria escrever um livro sobre a perspectiva de um fã, nem queria escrever para fãs de Moonspell, em exclusivo. O meu maior desafio foi contar uma história, real, de forma que tivesse interesse para qualquer leitor que aprecie o universo musical, e não apenas os fãs da banda.

Hintf: Como correu a colaboração com a banda, houve algum episódio mais especial que recordes?

Acho que não poderia ter corrido de melhor forma, pois passou de uma colaboração profissional para uma amizade pessoal que perdurará. Recordo vários episódios, mas o que mais retenho foi a forma como nos fomos conhecendo e como fui percebendo de que forma conseguia chegar a cada um deles. Não é fácil falarmos sobre nós próprios, sobre a nossa vida pessoal e profissional, que se interliga de uma forma que escapa à compreensão das outras pessoas, com empregos ditos normais. Esse processo de descoberta, de saber que botões premir ou evitar para que cada um falasse e reflectisse sobre o passado, é o que mais retenho de todo este processo.

Hintf: Neste momento há alguma obra já em processo de escrita ou alguma ideia na forja?

 Os projectos mais imediatos são as edições estrangeiras de «Lobos Que Foram Homens». Esta semana sai a edição mexicana, que será apresentada na Feira Internacional do Livro de Guadalajara, na qual Portugal é o país convidado em 2018, seguindo-se a edição britânica na primeira metade de 2019. Existem já abordagens para outras línguas, como russo ou polaco, e esses projectos devem ser concretizados para o ano. Sobre escrita de um novo livro, é possível que surjam novidades em 2019 mas nada que possa, para já, adiantar.

Hintf: Como é o processo de inspiração e escrita para ti sempre que começas um novo trabalho?

A minha experiência é na imprensa escrita, fosse na Underworld como agora na LOUD! e na Bang!, que são as colaborações regulares que mantenho. Este foi o primeiro livro que escrevi, e sendo uma história real, a questão da inspiração poderá parecer de menor importância do que seria caso fosse ficção. Mas continua a ser importante, não para o conteúdo, mas para a forma como a narrativa se estrutura e transmite ao leitor. Um livro tem de ter vida, de ser capaz de levar o leitor a um determinado lugar, numa determinada época, e fazê-lo sentir emoções. Tenho várias influências, inteiramente assumidas e até declaradas neste livro, nas quais me inspiro, mas procuro processá-las internamente de forma a encontrar a minha própria voz. Caberá aos leitores julgar se o consegui já neste livro, mas certamente que farei por evoluir em futuros trabalhos.

Hintf: O que pensas sobre os livros em portugal terem um preço bastante elevado, comparativamente a outros países na Europa?

É um facto de que são mais caros, e temos menor poder de compra, mas acho que o problema reside na escala. Somos um país pequeno e onde se lê pouco. É, pelo menos, essa a minha percepção e não digo isto com qualquer suporte estatístico no qual me baseie. Quanto maior for uma edição em termos de tiragem, mais barata sai a peça, e se o produto escoasse, o preço de venda ao consumidor seria mais baixo. Mas para editores, distribuidores, vendedores e autores não perderem dinheiro, têm de ser feitas tiragens pequenas que tornam a unidade mais cara, e ninguém quer perder dinheiro. No fundo, é um problema estrutural em Portugal, que não é exclusivo do mercado livreiro, que é a escala.

Hintf: Qual foi o último livro que leste?

Estou agora a terminar uma biografia do Lester Bangs, que é um dos meus escritores preferidos. Chama-se «Let It Blurt: The Life and Times of Lester Bangs, America’s Greatest Rock Critic», escrita pelo Jim DeRogatis. Estive recentemente numa fase Philip Roth, um escritor do qual já gostava muito e, após o seu desaparecimento, li mais três romances dele. Este Verão também li Hemingway e reli «The Dice Man», do Luke Rhinehart, e mais recentemente a biografia dos Swans, «Sacrifice And Transcendence». Reli alguns contos de H.P. Lovecraft, através da nova edição ilustrada da Saída de Emergência, e também alguma poesia: «I Am The Wolf», do Mark Lanegan, e «A Equação Celeste do Mendigo», do meu amigo Rui Sidónio. Na cabeceira está o «Walden», do Henry David Thoreau, que devo iniciar muito em breve.

Hintf: Gostarias de deixar uma mensagem aos nossos leitores?
Peace, love and understanding.

 

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