Eduardo José Almeida (Dico)

Entrevista: Eduardo José Almeida (Dico)

Por: Lígia Ferreira

Hintf: É um prazer fazer esta entrevista, como surgiu a ideia para o último livro “Emigrantes, Imigrantes — Experiências de Vida no Universo Metálico Português (1989 – 2018)”?

Para mim é igualmente um prazer responder à tua entrevista, Lígia, ainda para mais no âmbito de um projecto tão válido no Underground nacional como é a HINTF. Por isso, antes de mais, agradeço-te esta oportunidade.

A ideia de escrever o livro surgiu de uma forma muito natural: certo dia, em junho de 2016, apenas três meses após lançar a edição revista e aumentada do livro Breve História do Metal Português, estava a ver uma reportagem na TV acerca da crise migratória e comecei a pensar que nós, Portugueses, somos, historicamente, um povo de emigrantes; mas que nas décadas mais recentes nos tornámos também num povo receptor de imigrantes. Portanto, a ideia surgiu daí, ou seja, por que não combinar Metal e emigração/imigração? Foi algo que nunca se fez e tendo eu formação académica em Sociologia e Jornalismo a conceito surgiu naturalmente. Além de ser um prazer escrever este livro, foi mais um pretexto para escrever outra obra sobre metal (LOL). Uma vez mais uni o útil ao agradável, sempre numa perspectiva sociológica, jornalística e artística. Não consigo deixar de o fazer, tenho sempre uma perspectiva analítica sobre os fenómenos sociais.

Hintf: Quanto tempo demorou a recolha de todas as entrevistas? Há alguma que se tenha destacado em relação às outras por algum motivo em especial?

 A recolha das entrevistas demorou de junho de 2016 até maio de 2018, apesar de serem apenas 34. Houve muita gente que desistiu, outras pessoas que procurei durante muito tempo, etc. Outras entrevistas, pelo contrário, foram facílimas de fazer. Foi o caso da entrevista ao Mantas (ex-Venom, atualmente nos Venom Inc.). A Nuclear Blast andou a “engonhar” durante um mês, sempre a adiar, até que decidi falar com o Mantas diretamente através da página do Facebook da banda. Vinte minutos depois tinha a entrevista feita. Esta é uma das razões pelas quais abomino editoras, apenas atrapalham a carreira dos grupos. O Mantas foi tão simpático e acessível que o convidei a escrever o prefácio do livro. Ficou excelente.

De resto, destaco as entrevistas com o Aires pereira e com o Mike Gaspar (Moonspell), Rodrigo Leal (Hot Stuff), Marsten Bailey, Marcos Carvalho (Fantasy Opus), Dr. Space (Øresund Space Collective), Veronica Seterhall (V-Kaos), W. (Göatfukk), Carlos D’Água (Collapse of Light), King Demogorgon (Sardonic Witchery), Vasco ramos (ex-More Than a Thousand) ou Orlando Matias (ex-STS Paranoid). As entrevistas mais marcantes foram sem dúvida as do Aires, do Vasco Ramos, do W., do Marsten Bailey, do SC Daymon (Insomnia Asylum) e do João Alexandre (ex-Ibéria), pelo drama que encerram e por nos darem a conhecer a dureza que constitui, na maioria das vezes, ser emigrante/imigrante. Há histórias que realmente nos fazem pensar. Numa perspectiva mais ligeira, as entrevistas do Mike Gaspar e do Rodrigo Leal contêm declarações inéditas e impagáveis.

Hintf: No futuro pensas escrever algum livro novo, qual será a temática desta vez?

Sim, estou a escrever dois: a biografia de um músico nacional conhecido a nível do underground e outro sobre o qual ainda não posso falar, dado ser um projecto diferente. A biografia estará disponível ainda em 2019, o outro talvez esteja no final desse ano ou em 2020.

Hintf: Como escritor, jornalista e músico é fácil conciliar todas as vertentes?

Nem sempre é fácil, de facto. Os últimos seis anos têm sido extremamente cansativos, com livros a sair regularmente (em 2013 e desde 2016 anualmente), compilações, sendo eu a fazer tudo, desde a supervisão da paginação e da impressão, até à organização das apresentações dos livros, promoção, expedição e gestão de encomendas, já para não falar de toda a organização e divulgação das compilações. Tem sido um processo extremamente exaustivo.

Há muIto tempo que não toco, mas estou a pensar voltar a fazer música. Vamos ver se dá alguma coisa. Eu e um amigo com quem já toquei há muito tempo estamos a pensar fazer umas brincadeiras, ver o que dá e, caso se justifique, gravar qualquer coisa ou dar um concerto ou dois, quem sabe? É algo a médio/longo prazo, e que ainda nem sequer chegou a embrião. Há a ideia, falta começar.

Hintf: Qual das vertentes é aquela que te dá mais prazer?

Todas, mas aquela que está a dar-me mais pica é sem dúvida a perspectiva de desancar uma bateria com extrema violência. Tocar com a alma. Com os livros, no fundo, a vertente de escritor/jornalista funde-se, porque os meus livros são como que grandes reportagens, com alguma análise sociológica à mistura, mas escrevê-los é extremamente desgastante. Gosto sempre de fazer coisas diferentes, portanto, após estes dois livros (a não ser que um deles me faça ficar rico, LOL), acho que me vou distanciar um pouco da escrita a nível de livros.

Hintf: De momento trabalhas também numa nova compilação, para quando está previsto o lançamento, fala-nos mais sobre este trabalho…

Vai chamar-se Nobilis Metallum – II Sides of Lusitanian Heaviness e o título deve-se ao facto de muita gente ainda gostar de gravar os MP3 para CD-R. Portanto, é como que um CD duplo, em que o CD 1 se chama Heavy & Melodic (com temas de hard Rock, passando pelo heavy metal ou Metal Industrial) e o CD 2 se chama Obscure & Extreme (desde o Thrash ao Black Metal). A compilação estará disponível no final da segunda semana de dezembro para download gratuito e, como sempre faço, irei divulga-la por todos os meios à minha disposição.

Hintf: Qual foi o episódio mais marcante da tua carreira?

Vários, mas diria a divulgação televisiva dos Dinosaur através dos videoclips que gravámos; a gravação do álbum Darkside, com os Sacred Sin; a participação na dupla compilação em vinil The Birth of a Tragedy; a edição original do Breve História do Metal Português (em 2013) e a publicação da edição revista e aumentada deste livro (em 2016), que teve uma recetividade ainda melhor do que a versão original. O BHMO é um dos grandes pontos altos da minha carreira, sem dúvida.

Hintf: O que pensas da cena nacional actualmente?

Ao nível da qualidade e quantidade de bandas, nos últimos 20 anos a evolução é inacreditável. Tens músicos de excelência que facilmente poderiam fazer grandes carreiras lá fora, ou não vivêssemos nós em Portugal, com todos os constrangimentos que este projecto de país nos impõe, não só a nível económico, mas geográfico, etc. Há inúmeros grupos que nada devem a bandas estrangeiras, tal é a sua qualidade de composição e de execução, algo a que as novas tecnologias também ajudaram, no sentido em que é mais fácil cada elemento ensaiar sozinho em casa com base nas gravações feitas pelos restantes músicos e evoluir imenso segundo essa base de trabalho.

No entanto, julgo que a quantidade acaba por ser perniciosa: na minha opinião, existem grupos a mais. Por outro lado, algo que constato é que as muitas bandas ainda “andam aos papéis a nível de promoção”. Numa época em que as redes sociais ditam as regras, grande parte dos músicos não sabe como se promover decentemente. Publicam um ou dois posts e depois esperam para ver. Não percebo, sinceramente. Na da lhes cai em cima sem esforço.

Depois, tens as cunhas, os ódios exacerbados, os “amiguismos” e a corrupção. Sim, corrupção. Existe corrupção no underground português. Só não vê quem não quer. Corrupção, “amiguismos” e cunhas, reforço. Só quem tem amiguinhos consegue fazer alguma coisa. Os outros têm de se esforçar em triplo. Orgulhosamente, eu faço parte deste grupo.

Há bandas, especialmente desde o início da década de 00, a fazer carreira à custa de amigos e cunhas, desde a comunicação social especializada até aos promotores. Salvo raras excepções, perdeu-se o espírito altruísta do underground, em que não tens de oferecer um CD, uma t-shirt ou um livro para divulgarem o teu projecto. Chegámos a um ponto em que, curiosamente, por vezes são os órgãos mainstream que envergonham os media underground, ao falar sobre os projectos que se vão fazendo no Metal luso. Nesse aspeto estamos indescritivelmente pior, é cada um por si.

A competitividade exacerbada também revelou bem a sua faceta mais perniciosa, com projectos — bandas, órgãos de comunicação social, promotores, festivais, etc., a boicotaram-se mutuamente. Salvo raras excepções, perdeu-se completamente o espírito underground altruísta, desinteressado, de respeito pelo outro, de apoiar desinteressadamente. Em Portugal, o espírito Underground morreu e é por isso que, se nada mudar, a “cena” nacional nunca atingirá o estatuto da “cena” finlandesa, por exemplo. Somos os nossos piores inimigos.

De resto, há vários projectos a nível de comunicação social. Principalmente a nível de podcasts e programas de rádio tradicionais há vários projectos extremamente válidos, a maioria dos quais com longa história, como o Eclipse Metálico, o Holocausto, S.O.S. Heavy Metal Radio Show, o metal Global, entre outros. Em termos de revistas o cenário é muito mais triste: tens duas completamente iguais, que não acrescentam nada de novo uma à outra; pelo que deposito as minhas esperanças na terceira, recentemente surgida, a Metalegion.

Hintf: Gostarias de deixar algumas palavras aos nossos leitores?

Façam coisas originais, diferentes, que se distingam. Discos toda a gente grava, concertos e festivais toda a gente organiza, sem qualquer desprestígio, obviamente. Mas primem pela diferença. Deixem um legado de que se orgulhem quando se forem embora. Respeitem os outros, em qualquer circunstância, e sejam solidários. A cada momento façam sempre o vosso melhor. Não têm de ser os melhores, mas obriguem-se a vos próprios a fazer o melhor em cada momento. Daí a 10 minutos conseguirão fazer melhor? Óptimo, significa que evoluíram, mas pelo menos têm a consciência de que 10 minutos antes deram o melhor que podiam. Rejam a vossa vida por este princípio e esforcem-se para tocar/falar para 3 pessoas como se fosse para 30 mil.

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