Report Escrito Oeste Underground Fest III

Report Escrito Oeste Underground Fest III @ Pavilhão Multiusos da Malveira (#03_Novembro_2018)
#Text_By:
Paula Antunes // Hintf Webzine
Thanks:
Miguel Bastos, Luis Miguel Teixeira Sousa, Pedro Felicio // Oeste Underground Fest
Line Up:
Serrabulho, Repulsive Vision, ANALEPSY, Prayers Of Sanity, GAEREA, Hourswill, Warhammer, Karbonsoul, Undersave, Fear The Lord, Oppidum Mortuum

O passado dia 3 de Novembro avizinhava-se sombrio e chuvoso, apesar de amiúde o Sol tentar irromper ainda que com alguma timidez. Poderia ser motivo suficiente para confortavelmente instalados nos deixarmos preguiçar frente a um qualquer ecrã e mantermo-nos a salvo dos caprichos meteorológicos. No entanto se assim o tivessem feito os que de nós se aprontaram e rumaram até húmidas paragens nesta saloia freguesia do concelho de Mafra, teriam perdido a oportunidade de participar na já terceira edição do crescente festival Oeste Underground Fest.

O Oeste Underground Fest, adiante designado por OUF, não é um mero festival onde se reúnem meia dúzia de bandas em cima de um palco e se refrescam goelas que acompanham belas e cheirosas bifanas ou outra espécie de petiscaria … Não. O OUF é o festival que se impõe e assume desde o seu inicio com a vertente solidária de apoio incondicional aos Soldados da Paz da zona, que prontamente e desde logo nos abriram as portas do seu Pavilhão Multiusos para que benemérita e ruidosa romaria se desenrole, numa também solidária forma de apoio ao emergente panorama musical nacional.

Com um cartaz que desde o seu arranque prima por incluir várias vertentes musicais, sempre dentro das linhas mais pesadas, a edição de 2018 não foi diferente e incluiu à semelhança da aposta da edição anterior, dois nomes internacionais. Mas a estes chegaremos atempadamente. É necessário ainda antes de falarmos sobre as bandas que pisaram o palco, referir que a pontualidade foi uma constante, a qualidade técnica oferecida quer aos intervenientes quer ao público superou-se, muito também graças à experiência e qualidade profissional da equipa e material técnico dos Rock’N’Raw Studios, de Miguel Tereso e Jerson Ribeiro que no leme dirigiram em boa direcção este evento, sempre bem articulados e sintonizados com a dupla de stage managers, Luís Sousa e José Carlos.

Assim, pelas 16h30 subiu ao palco a primeira banda, oriunda de Óbidos e praticantes de doom/death metal, o ainda jovem trio Oppidum Mortuum. Apesar de com um ainda curto percurso e uma Demo editada em 2016, a banda de Mox e seus rapazes trouxeram até à Malveira uma actuação segura, com uma sonoridade imponente e cantando em português temas como ‘Poço’, ‘Homem d’Capa de Sangue’ e ‘Cadáver Alado’, estas algumas das novas músicas que surgirão brevemente editadas e que revelaram uma saudável aposta na sua investida de caminhos musicais mais negros, mantendo na mesma a congruência do seu death metal, em opção com os temas ‘Mocharro’ e ‘Rua Direita’, que fechou este seu set de 30 minutos e tendo cumprido perfeitamente com a honrosa escolha para a abertura de OUFIII, prova no facto do público já presente se ter mantido à boca de palco, em apoio à banda.

De jovens falamos também na banda que se seguiu, estes provenientes do Seixal, Margem Sul e que têm vindo a reforçar a mais-valia que são como uma das novas e pulsantes formações do nosso Hardcore, os Fear The Lord. Para o OUFIII optaram por abrir o seu set com dois dos temas já conhecidos, ‘Negative/Violent’ e ‘Danse Macabre’, que assim aqueceram um pouco mais o ainda algo morno ambiente. Com o novo EP a ser lançado em breve, ‘Southside’ de seu nome, interpretam então três temas que mostram a busca por caminhos mais melódicos, com muito groove e sentimento, mas também com a garra que já lhes vamos reconhecendo, tendo sido ‘The End’, ‘Rope To The Neck’ e ‘Scythe To The Tyrant’.

Intensamente rodando os palcos nacionais nestes últimos meses, o coletivo lisboeta Undersave é também das actuais bandas em ascensão e esta merecida dada a constante evolução que têm sofrido ao longo dos seus já 16 anos de carreira, e que executando um death metal com bastante técnica, trouxeram até nós o seu perturbador álbum ‘Sadistic Iterations… Tales of Mental Rearrangement’. Executaram de forma limpa e numa prestação coesa parte deste álbum com particular destaque para ‘Hereditary Condemnation Through Immunity’, com a particularidade da voz estar bem quente, bem treinada e deixando ficar para trás alguns berros, o que resultou muito bem no seu todo.

Três bandas apresentadas, três edições de OUF e é nesta que pela primeira vez sobe ao palco uma banda com voz feminina. De Sintra chegaram os Karbonsoul, um dos mais carismáticos colectivos nacionais que não têm limites para a sua sonoridade, arriscando-se cada vez mas a incluir outras linhas sonoras avivando e espicaçando o seu intenso death metal. Com a lsempre forte e imponente presença de Muffy, a descontração de Rstein e a serenidade de Rvid, ‘Construction Through Destruction’ continua a ser o seu ‘hit’ e o tema que consegue ligar velhos e novos temas como se um álbum fosse executado em continuum. Também Sir Nightfall esteve bem nos comandos da bateria de Karbonsoul, uma excelente escolha neste alinhamento de 2018 e que apesar de tão em cima virem substituir os Rencor, foram irrepreensíveis e conseguiram fechar bem a boca de palco com a já muito bem composta e disposta plateia que não se fez rogada no apoio musical cantando e gesticulando.

A primeira das duas bandas não portuguesas trouxe o sempre tão requisitado thrash metal, é quase impensável num qualquer evento mais ecléctico não se ter a rapidez de uns bons e rasgados riffs e os gregos Warhammer chegaram precisamente com este intuito. Foi de facto rápida a sua atuação, um set escorreito que se diversificou entre novos e antigos temas, sendo ‘Mass Burial’ uma lufada de ar fresco a uma sonoridade que por vezes desgasta. Cansados por poucas horas de sono dormidas mas enérgicos e muito satisfeitos por estarem em palcos portugueses, assim foi a assertiva atuação dos Warhammer.

Indo já a mais de meio este OUFIII, e com as prévias actuações de sonoridades díspares, é chegada a vez do tradicional Heavy Metal se fazer ouvir, este com o cunho bem vincado da faceta progressiva e que tão familiar e apetecível nos é apreciar quando desempenhado pela banda liderada por Leonel Silva. As horas chegam e os Hourswill souberam agarrar e bem a natural dispersão de algumas almas metaleiras por o estômago também dar as suas horas. Revelando atitude, destreza e o afinco laboral que lhes é conhecido, cada vez mais este colectivo lisboeta se solta em palco e foram dos minutos mais interventivos do dia, escudando-se nos seus dois álbuns editados. A evolução musical tem sido notória e assistir a Hourswill é sempre um momento descontraído, mesmo com as invetivas pertinentes que as suas letras focam e às quais ainda que momentaneamente não ficamos indiferentes. Culpa-se também os bons riffs despretensiosos e uma dinâmica fluída no trio bateria-baixo e voz. Fecharam um set limitado de tempo com a introspecta ‘Abyss Syndrome’, que fecha também o seu último álbum ‘Harm Full Embrace’ e curiosamente dá o mote ao “abismo” seguinte.

Aos dias que correm e apesar de cada um ter as suas preferências estilísticas a nível musical, felizmente que fomos crescendo e sendo habituados (uns mais que outros) a ser permeáveis novos ciclos e novas vagas sonoras. Uma das bandas que ultimamente mais tem conseguido atingir este parâmetro é sem dúvida a que dá pelo nome de Gaerea, entidade musical que veicula a sua negra arte sob vestes que nos impelem apenas e somente a absorver a sua musicalidade e o sentimento que por ela nutrem manifesto na algo teatral postura e presença de palco. Constatou-se estarmos perante um colectivo que nada tem de vazio ou sombrio, com temas ouvidos como ‘Void of Numbness’ ou ‘Absent’ que nos preenchem a alma e aumentaram a voracidade dos que fizeram questão de se acercar do palco e preencher vazios. Os Gaerea foram grandes num também grande palco, honraram o evento com a sua atuação e o OUFIII honrou-os também pelo seu já invejável e trabalhoso percurso musical.

Percorrendo alguns quilómetros até chegarem a terras saloias, exige-se desde logo o respeito para a trindade que pratica um thrash metal bruto e rasgado e que nos tem mostrado desde os seus primórdios e já vão onze anos desde a sua formação, que quando sobem a palco vêm com tudo. Os Prayers Of Santity são daquelas forças da natureza musical que se entregam em absoluto, agarram o que têm e conseguem aumentar a predisposição das hostes (que se manteve até à sua chegada…) algo quieta no sentido físico que a coisa impõe: surgem finalmente os pits, o headbanging e as danças características que apenas riffs poderosos e enérgicos conseguem arrancar, aliados dum motivante frontman que tal como qualquer bom líder e orientador devem fazer, exemplificando, fazendo ele próprio. Dos três álbuns que se perfilam já na sua discografia ofereceram algumas pérolas destes como exemplo do seu melhor, ‘Past Present None’ ou ‘Unturned’.

Nós somos os Analepsy… Perdoem, gralha da que escreve… ELES são os Analepsy e quem até hoje ainda não os viu atuar não faz a mais pálida das ideias do que tem perdido. E isto porque deveríamos reconhecer que no nosso fundinho também gostaríamos de ser ‘Analepsy’, uma jovial congregação de exímios músicos e intérpretes que dá o litro, não a litrosa, e que com paixão e trabalho árduo tem conseguido evidenciar-se e manter-se destacado de seus pares. Deixando as brincadeiras para outras linhas, os Analepsy arrasam qualquer palco que pisem e se hoje com medianas idades entre as vintenas fazem o que fazem que dizer quando chegarem aos ‘entas com a maturidade e profissionalismo que levam na bagagem? No OUFIII e ao longo de 40 minutos descarregaram compulsivamente ‘Colossal Human Consumption’, um dos primeiros temas da sua carreira de slamming brutal death metal técnico, à altura assinado pela VYS, desencadeando-se o set em constantes picos eléctricos e pejados de tecnicismo. Também ‘The Vermin Devourer’ não faltou para gáudio dos presentes ou a surpresa de fecharem com o convidado frontman de Bleeding Display, Sérgio Afonso, num duelo vocal ímpar e de cortar a respiração.

Avizinhando-se o avançar para o términus desta 3ª edição, a expectativa para o death metal old school dos britânicos Repulsive Vision era alguma, não só pelo que fomos ouvindo ou conhecemos desta banda mas também porque ninguém certamente ficou indiferente à sua constante presença no recinto acompanhando as bandas actuantes. E isto, permitam o aparte, é só por si de louvar e de fazer merecer o nosso apoio físico na sua atuação. Foi o que aconteceu. Mereceram ter uma frente de palco bem preenchida e apoiante da sua música, ávida de escutar o seu estreante álbum, ‘Look Past the Gore and See the Art’. ‘Harmless Entertainment’ que figura neste registo de 2017, é seguramente a melhor descrição para a atuação do quarteto oriundo de Cumbria, cumprindo com os requisitos da internacionalização do seu death metal inspirado quer em nomes maiores de terras de sua majestade quer de pontos mais a norte da Europa. Ficou uma atuação de elevado nível e quiçá o regresso aos nossos palcos num futuro próximo.

Repetindo a sua presença neste festival e querendo os Deuses que mais uma vez fossem os ‘close’liners, os Serrabulho são sem dúvida uma das melhores formas de se encerrar um evento desta natureza. Não retirando de forma alguma o peso que têm na sua música Happy Grind e que conferem de um outro colorido o nosso tão queridamente dito underground nacional, servem também para a natural descompressão que se quer e necessita após o desfilar de tamanha qualidade musical. Façamos a nossa vénia à sua endurance, estando em estrada há dias consecutivos deixaram toda a sua alegre e contagiante energia no palco do OUFIII. Uma actuação de Serrabulho é sempre inusitada, nunca se consegue prever o que vai realmente acontecer, tirando o descarregar de malhões como ‘Léche Moi les Couilles’ ou ‘Pubic Hair In The Glasses’, que vestes irão envergar ou que outras cenas mais possam acontecer. Aconteceu de tudo um pouco, por entre as novas canções de ‘Porntugal (Portuguese Vagitarian Gastronomy)’, como ‘Pito Sem Penas’ que efusivamente aconteceu sobre o estropiamento de algumas inocentes almofadas e cujos escombros atapetaram de fofo branco palco e recinto. Parabenizou-se quem anos fazia, ficámos a saber que quando queremos cagar e não podemos chamamos o ilustre Dico à bateria, soubemos que é possível incluir folclore (ainda mais) no Happy Grind Death metal quando eximiamente executado se ouve gaita-de-foles e violino, soprado e tocado por Ricardo Santos e queremos crer que a melhorada versão de ‘Sweet Grind O’Mine’ foi concebida não só por pura diversão mas como também para perpetuar os agradecimentos a promotores, organizadores e demais entidades que neles apostam e a nosso proveito incentivam. Mais se poderia eventualmente dizer sobre esta actuação mas assim também se retiraria o tal elemento surpresa que é bom termos para quando os voltarmos a ver. Uma coisa é certa, Grind is Love e a paradoxal ‘Left Ball’ faz o repto para o próximo baile.

Posto isto e num dia/noite que se previa cansativo pois a idade vai pesando, resume-se o OUFIII a mais uma Excelente edição conseguida com o trabalho incansável de incontáveis horas e dias dedicados ao planeamento e execução sem que pormenores se descurem; a atenção dada a quem chega ao recinto é uma característica que todos prezamos e as sorridentes porém extenuadas caras das Mulheres que ombreiam ao lado de Luís Sousa, Miguel Bastos e Pedro Felício, os três Mosqueteiros que defendem a causa da Corporação de Bombeiros da Malveira, mereciam um pouco mais de afluência neste dia 03 que correu veloz e sem percalços. Ficam em nome desta que escreve os agradecimentos da equipa da Hintf Webzine, e desta vez permite-se esta estendê-los também aos restantes pares de comunicação existentes e resistentes no recinto e que ajudam a fazer a diferença. Em prol da comunidade musical metaleira nacional e em prol de outréns que nos ajudam quando menos esperamos, esta será certamente apenas uma das formas que temos de lhes retribuir a sua dedicação e esforço, com muitas vezes vã inglória. Até 2019, OUF!!

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