Atrocity

Entrevista: Atrocity

Por: Paula Antunes

Hintf: Antes de mais devo congratular-vos pelo vosso excelente trabalho! – Toda a vossa discografia e em particular a mais recente edição, o novíssimo álbum “Okkult II”. Então comecemos por falar um pouco sobre os Atrocity, os seus primórdios, quão fácil/difícil têm sido estes 32 anos de existência enquanto banda no ativo, os seus altos e baixos… J

Alex: Com os Atrocity estamos sempre à procura de novos desafios, novos horizontes musicais e ideias, também além da música, tal como a caça ao tesouro que começamos com a trilogia no álbum “Okkult”. Formámos os Atrocity em 1985 enquanto ainda miúdos de escola e tornámo-nos os percursores da cena de Death metal alemã. Na altura ninguém realmente queria este tipo de bandas de metal extremo. Nem clubes, agências ou editoras. Até mesmo algumas das revistas de metal. Era um movimento alternativo e éramos parte importante do mesmo. Os Atrocity e eu estávamos lá quando tudo começou. Temos estado pessoalmente em contacto com outras bandas desde os Morbid Angel, Pungent Stench, a Immortal ou Entombed. A propósito, eu organizei o primeiro Euro Death Metal Festival e a primeira tour europeia de Atrocity juntamente com os lendários britânicos Carcass em 1990. Belos tempos! Na altura queríamos apoiar-nos uns aos outros, todas as bandas de quem éramos amigos, desde Napalm Death a Entombed! Muitos deles eram convidados da minha casa. Mas quem pensaria que uma banda alemã alternativa iria um dia dar a volta ao mundo em tour e entrar nos tops! O nosso lado mais brutal e também o experimental como os álbuns “Werk 80” fazem parte da história dos Atrocity. Somos como pintores. Se uma pintura deve ser horrenda e brutal então usaremos cores diferentes das de uma negra mas bela pintura. A trilogia “Okkult” combina as nossas raízes com as novas ideias musicais.

Hintf: Todo o atual lineup de Atrocity é também o mesmo que em Leave’s Eyes, um projeto bastante distinto de Atrocity; quando se juntam como separam a criatividade para ambos os projetos e os fazem soar tão diferentes um do outro? E como conseguem gerir toda esta intensidade de trabalho de forma tão precisa e ainda assim permitirem-se terem as vossas próprias vidas?

Tosso: Ambas as bandas têm o seu caminho, a sua história e música. No começo temos sempre uma certa visão acerca de novas sonoridades com cada banda e também nos tentamos desafiar a nós mesmos em cada período criativo. Trabalhar num novo álbum é de facto duro e intense, mas ao mesmo tempo muito excitante e divertido. Esta mistura de excitação, desafio e diversão é o que nos motiva a continuar e abre caminho a novos horizontes. Mas tens razão, assim que um álbum de ATROCITY está completo isso significa que o trabalho com LEAVES’ EYES vai começar. O Alex também produz muitas outras bandas no nosso estúdio Mastersoundstudio, pelo que por vezes é muito difícil ter espaço suficiente para uma vida privada. Mas quando fazes o que decides e adoras fazer, isso nem se sente como trabalho, é mais como continuar vivo.

Hintf: Agora, o “Okkult II” saiu, lançado no passado dia 6 de Julho, e novamente pela editora Massacre Records, com quem editaram os discos “Blut” e “Willenskraft”, dois dos vossos discos mais duros e obscuros. Podem dizer-nos quais as razões para voltarem à família Massacre Records?  

Tosso: Depois do lançamento do álbum “OKKULT I” em 2013, o nosso contrato com a Napalm Records estava feito. Depois disso tirámos algum tempo para ver que melhor parceiro poderia haver para colaborar connosco no futuro. Estarmos de novo com a Massacre Records acaba por ser em si uma história fantástica. Nos anos 90 tivemos um enorme e excelente período criativo em que álbuns clássicos como “BLUT”, “WILLENSKRAFT” e “WERK80” são exemplo. Da primeira vez que o Alex e eu voltámos à sede da Massacre Records e que não fica muito distante do nosso MASTERSOUND STUDIO e encontrámos os rapazes lá, especialmente o Thomas Hertler, que foi colega do Alex na altura em que ele próprio lá trabalhava nesses tempos. Eu apenas consegui ver caras sorridentes… incluindo eu mesmo. Estamos muito felizes de trabalhar com a Massacre Records agora e para o futuro.

Hintf: Este álbum, “Okkult II”, ele surge após um hiato de 5 anos sobre o seu predecessor “Okkult”, um disco muito aclamado fazendo as expetativas do vindouro muito elevadas, e se me é permitido dizer, bem ultrapassadas com o surpreendente EP “Masters of Darkness”; quais eram as vossas expetativas iniciais quando iniciaram a composição desta ‘Okkult’Era’, qual era o principal objetivo a atingir?

Tosso: Para o primeiro disco “OKKULT” fizemos muitas tours mundiais, estivemos na Europa, Asia, América Latina e do Norte, só para nomear algumas. Além disso também viajámos muito em digressão com os LEAVES’ EYES. Por isso já havia muito a acontecer antes de começarmos a escrever novo material. Quando começamos, ficou claro desde logo que queríamos desenvolver o resultado obscuro, mau e mais brutal de “OKKULT I” para uma ainda mais intensa atmosfera cheia de riffs de guitarra pesados, sombria e também com excelentes ganchos recheados de growls. O EP “MASTERS OF DARKNESS” foi uma grande ajuda para definir o som de “OKKULT I” com confiança e força. Acho que o “OKKULTII” se tornou mesmo um monstro em todos os aspetos.

Hintf: Falem-nos um pouco mais deste álbum, o “Okkult II”, a ideia conceptual deste capítulo, sobre o que nos fala?

Alex: Sempre me interessei muito por tópicos obscuros e escrever sobre estes nas letras para Atrocity. Já com o álbum “Blut” (1994) e o seu negro conceito vampírico que foi fascinante fazer a pesquisa na Transilvânia, terra do meu avô, e mergulhar bem fundo no tópico, e filmar um videoclip no assustador castelo da Transilvânia. Depois, já com o mais extensivo conceito do álbum “Atlantis” (2004), houve uma incrível panóplia de diferentes fontes e pontos de contacto com o tema. Isto foi desde o trabalho científico e arqueológico nas perspetivas mitológicas e teorias esotéricas, a interpretações ocultistas do Terceiro Reino do utópico mundo da ovniologia. Então foi-me quase óbvio que o próximo conceito a surgir seria algo a ver com os mistérios da história mundial e o lado negro da humanidade. E um só álbum não seria suficiente, pelo que aqui temos então a trilogia “Okkult”. Nem sempre temos que explicar a nossa arte, também para podermos dar aos nossos ouvintes a devida liberdade às suas próprias interpretações e visões da música e letras.

Hintf: Neste disco, têm dois bem conhecidos músicos da cena metal mundial a colaborar convosco, o que enaltece ainda mais a grandiosidade da épica sonoridade de “Okkult”. Digam-nos como surgiram estas colaborações e de como foi divertido este processo de gravação?

Alex: O LG e o Marc são ambos companheiros de longa data. Conhecemo-nos desde os dias dourados do underground do Death Metal de finais dos anos 80, inícios dos anos 90. Em idos de 1990 os Atrocity fizeram tour com os Morgoth, Autopsy e os Pestilence. Desde essa altura que eu e o Marc nos conhecemos. No mesmo ano eu trouxe o LG e os Entombed à Alemanha pela primeira vez para o festival “Support the Underground” com os Carcass, Atrocity, Pungent Stench, etc. Eu próprio tinha organizado os festivais e foram dos primeiros festivais de Death Metal a um nível internacional a acontecer na Alemanha, França e Bélgica. O LG e os rapazes dos Entombed ficaram muito gratos por isso. O Marc e o LG estiveram ambos no nosso filme-documentário “The Godless Years” e fizeram grandes entrevistas para esse fantástico DVD. Quando lhes perguntámos se queriam ser nossos vocalistas convidados no “Okkult II”, ambos entusiasticamente responderam ‘presente’. A cooperação foi bem espetacular!

Hintf: ‘Shadowtaker’ é o vídeo oficial que apresenta o álbum “Okkult II”na forma visual e artística; porque escolheram esta canção em particular e o que vos inspirou a criar este vídeo?

Alex: A atuação da banda foi filmada numa velha mina do século 18 na Alemanha. Tivemos que levar o nosso equipamento a uma profundidade de 40 metros abaixo da terra e a 500 metros de distância da entrada da mina por entre a montanha. Muito desafiante e nada recomendável a quem seja agorafóbico, haha. Quando filmámos as cenas da banda estavam 35 graus lá fora e apenas 6 dentro da montanha… Que diferença! A canção em si é sobre a fantasmagórica cunhagem eslava. Uma interessante fonte é relatada por Karl Ferdinand von Schertz, que escreveu o livro “Magia Posthuma” em 1704, e que por inexplicáveis incidentes os fantasmas atacavam os humanos. As vítimas morreriam uns dias depois. Em 1732, um relatório sobre o vampirismo do oficial médico Johann Flückinger na corte vienense causou uma grande sensação e alimentou o interesse e a crença na existência dos mortos-vivos. Atualmente, tais investigações foram realizadas sobre o vampirismo em nome das autoridades dos Habsburgos com o objetivo de apagar a superstição rural nas áreas eslavas. Em 1755, o chamado “decreto de vampiro” foi mesmo emitido especificamente para este fim com várias proibições sob ameaça de punição. Entre outras coisas, a abertura das sepulturas, a extirpação, a decapitação e a queima de cadáveres que se acreditava serem restos foram banidos e punidos.

Hintf: Planos e objetivos para o futuro próximo dos Atrocity? Como está a vossa agenda de concertos e quando vos poderemos ter de novo a atuar em Portugal (desde 2004…J)?

Tosso: Temos várias ofertas internacionais, e também uma para um show no Dubai. Mas como estamos numa extensa tour europeia com os LEAVES’ EYES, juntamente com os KAMELOT em Setembro e Outubro deste ano, faremos a maior parte da tour mundial para o novo álbum, em 2019 e 2020. O primeiro show, o nosso concerto de lançamento do álbum foi há uns dias no Sunstorm Festival na Alemanha e correu espetacularmente. As canções do novo álbum soam incrivelmente pesadas e é muito divertido e desafiante tocá-las ao vivo.

Hintf: Por fim mas não menos importante, deixem-nos uma mensagem aos nossos leitores e vossos seguidores e apoiantes portugueses…  

Alex: Obrigado a todos os nossos fãs e apoiantes de Portugal! Muito obrigado por esta entrevista! Vemo-nos em tour; gostaríamos muito de voltar a Portugal!!

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Interview: Atrocity

By: Paula Antunes

Hintf: First of all I must congratulate you guys on your awesome piece of work! – Your hole discography and in particular the most recent edition, the newest “Okkult II” album. So, let’s start to talk a bit about Atrocity, its beginning, how hard/easy has been this endurance of 32 years as an active band, its ups and downs… J

Alex: With Atrocity we were always looking for new challenges, new musical horizons and ideas, also besides the music, just like the treasure hunt that we started with the “Okkult” album trilogy. We formed Atrocity already in 1985 as school kids and became the forerunners of the German Death Metal scene. Back in the day actually nobody really wanted this kind of extreme metal bands. No club, no agency, no labels. Even some of the metal magazines. It was an underground movement and we were a big part of it. Atrocity and I was there myself when it all started! We have been in personal contact with most of the bands from Morbid Angel, Pungent Stench, and Immortal to Entombed. By the way I organized the first Euro Death Metal Festivals and our first Atrocity Euro tour together with UK legends Carcass in 1990. Great times! Back then we wanted to support each other, all the bands we were friends of, from Napalm Death to Entombed! Many of them were guests in my house. But who would have thought that a German underground band would one day tour the world and even enter the charts! Our brutal side and the more experimental stuff like the “Werk 80” albums are both part of the Atrocity history. We are like painters. If a picture shall be horrifying and brutal we use different colours than on a dark but beautiful painting. The “Okkult” trilogy combines our roots with new musical ideas.

Hintf: All the actual line-up of Atrocity is also the same line-up in Leave’s Eyes, a very distinct project from Atrocity; when you gather yourselves as Atrocity how do you do to separate the creativity for both projects and make them sound so different from one another? And how do you manage to keep up all this intense and hard work so sharp and accurate and still have time to allow yourselves to have personal lives?

Tosso: Both bands have their own way, history and music. In the beginning we always have a certain vision about new music with each band and also we try to challenge ourselves with every new creative period. Work on a new album is indeed hard and intense, but at the same time very exciting and fun. This mix of excitement, challenge and fun is what keeps us driving and always making our way to new horizons. But you are right, once an ATROCITY album is completed it means that work for a new LEAVES’ EYES album is about to begin. Alex also produces a lot of other bands in our Mastersoundstudio, so sometimes it can be really difficult to have enough space for a private life. But when you do something you decided yourself and love, it doesn’t feel like work, more like being alive.

Hintf: Now, “Okkult II” is out, released this past July 6th, again via Massacre Records, the label with which you’ve released ‘Blut’ and ‘Willenskraft’, two of your most obscure and harsh records. Can you tell us the reasons to be back at the Massacre Records family?

Tosso: After the release of the OKKULT I album in 2013, our recording contract with Napalm Records was fulfilled. After that we took some time to check who would be the best partner to work with together on the future of our band. To be back now with Massacre Records is just a fantastic story for itself. We had a great and very creative time on Massacre in the 90ies with band album classics like “BLUT”, “WILLENSKRAFT” and “WERK80” for example. The first time Alex and me came back to the headquarters of Massacre Records, which is not very far from our own headquarters MASTERSOUND STUDIO and met the guys there, especially Thomas Hertler, who was Alex colleague when he was working there himself at Massacre back in the day, I could only see smiling faces…including myself. We are very happy to work with Massacre Records now and in the future.

Hintf: This album, “Okkult II”, it comes out after a gap of 5 years from its predecessor ‘Okkult’, a highly acclaimed record making the expectations to the upcoming record very high, and if I say, well surpassed with the outstanding EP “Masters of Darkness”; what were your initial expectations when first started the composition of this ‘Okkult’Era’, what was the main goal to accomplish?

Tosso: For the first OKKULT we did a lot of worldwide touring, we were in Europe, Asia, North and Latin America just to name a few. Besides that we also did a lot of touring with LEAVES’ EYES. So there was a lot going on before we started writing new material. When we started it was soon clear that we wanted to develop the dark, evil and brutal outcome, OKKULT I, to an even further intense with a lot of heavy guitar riffs, haunting atmosphere and also great hook lines to growl along. The MASTERS OF DARKNESS EP was a great help to shape the sound of OKKULT II with confidence and strength. I think OKKULTII has really become a monster in every way.

Hintf: Tell us a bit more about “Okkult II”, the conceptual idea of this chapter; of what does it talk about?

Alex: I was always interested in dark topics and writing these kinds of lyrics for Atrocity. Already with the “Blut” album (1994) and its dark vampire concept it was fascinating to do research in Transylvania, home of my grandfather, and to dive deep into a topic and film a video clip on a spooky Transylvanian castle. Then in the very extensive work on the “Atlantis” concept (2004), there was an incredible range of different sources and points of contact on the subject. This went from scientific, archaeological work, mythological perspectives on esoteric theories, and obscure interpretations of occultists in the Third Reich to the far-out world of ufology. Then it was almost obvious to me that the next concept we would come up with could be about the mysteries of world history and the dark side of humanity. And one album would not be enough, so here we are with the “Okkult” trilogy. You shouldn’t always have to explain your art, also to give the listeners enough freedom for their own interpretations and visions of the music and lyrics.

Hintf: In this record, you’ve have two well known musicians of the metal world scene to collaborate in it and thus enhanced even more the highness and grandiosity of “Okkult”’s epic sonority. Tell us how these collaborations happened and how fun was all the recording process?

Alex: LG and Marc are both old companions. We know each other from the “golden days” of the Death Metal underground in the late 80ies, early 90ies. Back in 1990 Atrocity toured with Morgoth, Autopsy and Pestilence. Since that time I know Marc already. In the same year I brought LG and Entombed to Germany for the first time on the “Support the Underground” festivals with Carcass, Atrocity, Pungent Stench etc. I had organized the festivals myself, and they were some of the first Death Metal festivals on an international level and took place in Germany, France and Belgium. LG and the Entombed guys were very grateful for that. Marc and LG were both on our Atrocity film documentary “The Godless Years” and did great interviews for that amazing DVD. When we asked them whether they would like to be a guest vocalist on “Okkult II”, both were immediately enthusiastically present. The cooperation turned out really cool!

Hintf: ‘Shadowtaker’ is the official video set to present “Okkult II” in the visual and artistic way; why have you chosen this song in particular and what has inspired you to create this video? 

Alex: The band performance was filmed in an old mine from the 18th century here in Germany. We had to get all our gear 40 meters below ground and 500 meters from the mine entrance into the mountain. Quite a challenge and not recommendable for people with agoraphobia, haha. When we shot the band scenes it was 35 degrees outside, 6 degrees inside the mountain…What a difference! The song itself is about the Revenant Slavic coinage. An interesting source is reported by Karl Ferdinand von Schertz, who wrote the book “Magia Posthuma” in 1704, and by inexplicable incidents of revenants that attack humans. The victims die within a few days. In 1732, a report on the vampirism of the medical officer Johann Flückinger at the Viennese court caused a great sensation and fueled the interest and belief in the existence of the undead. Actually, such investigations were carried out on vampirism on behalf of the Habsburg authorities with the aim to erase the rural superstition in the Slavic areas. In 1755, the so-called “vampire decree” was even issued specifically for this purpose with various prohibitions under threat of punishment. Among other things, the opening of the graves, the staking, beheading and burning of corpses believed to be revenants were banned and punished.

Hintf: Plans and goals for the near future of Atrocity? How is your live agenda and when can we have you performing live again in Portugal (since 2004…J)?

Tosso: We have several international show offers, also one for a show in Dubai. But since we are on an extensive European tour with LEAVES’ EYES together with KAMELOT in September and October this year, we will do most of the worldwide touring for the new album in 2019 and 2020. The first show, our album release show at Sunstorm Festival in Germany a few days ago turned out fantastic. The songs from the new album sound incredibly heavy and it’s a lot of fun and challenging to perform them.

Hintf: Last but not least, leave us a message for our readers and your Portuguese supporters and followers…

Alex: Thanks to all our fans and supporters from Portugal!! Thanks a lot to you for this interview! See you on tour; we would love to return to Portugal!!

 

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