Report Escrito: Masmorra Fest II

Masmorra Fest II @ Another Place, Almada (09.Junho.2018)

Archaic Tomb // Flageladör  // Martelo Negro // Summon // Balmog // Filii Nigrantium Infernalium

By:Paula Antunes (Hintf Webzine)

Todos os começos são difíceis e no que toca à conceção/organização de um evento há sempre muito a considerar, tentando abranger-se o máximo de qualidade possível e muitas das vezes – e no nosso meio a maior parte das vezes – os recursos são limitativos para não dizer castradores de projetos com alguma inovação. O primeiro começo do Masmorra Fest deu-se em 2016 num agora infelizmente extinto espaço que começava já a ser a alternativa local para eventos de cariz mais negro, mas quiseram os deuses na altura que este fosse (e foi) um começo marcante e desejável de acontecer com a frequência possível aos seus organizadores.

Pautando-se pela solidez de uma boa base de arranque e dando primazia à atuação de bandas que tocam ao vivo com menor frequência, a Caverna Abismal Records enquanto principal entidade organizadora, proporciona não só pela seleção de bandas que detém no seu catálogo a mais-valia de algumas estreias absolutas como também o reacender da chama de bandas já de cavernoso culto e crescente horda de fieis seguidores.

Sob esta abissal vontade de fazer e de participar se juntaram as hostes em Almada no passado dia 9 de Junho, vestindo-se de profundo negro a agora nova sala de congregação de espíritos mais imbuídos dos géneros black e death metal com as suas naturais e abençoadamente pérfidas variantes – o Another Place; e antes de falarmos sobre as bandas culpadas de tamanha blasfémia musical que ali se deu enderecemos uma palavra de louvor ao público que desfaz fronteiras entre margens e que mantém os começos possíveis de acontecer e dão azo à sua merecida continuidade; Ámen!

Tendo como principal mote a Morte e pacientemente ultrapassada a elipse temporal de uma vintena de anos desde a sua idealização, os Archaic Tomb assentes na Divina Trindade foram os primeiros a abrir as hostilidades nesta segunda edição do Masmorra Fest, estreando-se em palco com a apresentação do seu debutante “Congregations for Ancient Rituals”, este tocado na íntegra ainda que em ordem diferente do alinhamento escolhido para o registo físico. Numa coesão de palco quase sobrenatural, a descarga de death metal cavernoso e soturno abateu-se sob as almas presentes, com riffs atordoantes e uma vocalização gravosa e limpa, entoando-se os rituais sagrados em crescente frémito com visível regozijo de seus executantes e perpassando esta adrenalina ao público como suaves ondas de choque. Apenas os escolhidos que escolheram fazer parte deste ritual tiveram também a oportunidade de ouvir em primeira mão o tema ‘Persecution Paraphernalia’, que constará do alinhamento de futura edição discográfica prevista acontecer algures num presente futuro. Os Archaic Tomb proporcionaram um dos momentos mais intensos e inebriantes deste evento e queiram os deuses tudo se conjugue para que rapidamente os possamos ter de novo em palco.

Formados no inicio deste novo milénio, o coletivo provindo de terras de Vera Cruz que dá pelo nome de Flageladör (666),prontamente se fez subir a palco e tomou de assalto esta congregação blasfema adoradora da música do metal, despejando vilmente a sua arte e mestria nos estilos Speed/Thrash, numa atuação de bradar aos céus de tamanha intensidade rítmica, com um set escolhido que recaiu essencialmente sobre as composições feitas de 2012 a esta parte, interagindo malvadamente com o público entre ‘Assalto da Motosserra’ e onde ‘Ao Vivo No Inferno’ se brada por ‘Perseguir e Exterminar’, criando um verdadeiro festim de velocidade e dinamismo rítmico.

Com a perda das ausências cujos motivos não importam ganha-se o privilégio da presença de palco de um dos coletivos mais infernalmente interessantes de assistir na nossa cena musical, os Martelo Negro que prontamente cederam o seu tempo de estúdio e sadicamente nos fazem regozijar com a ‘Mutilação Ritual’ de ‘Anjos Captivos’, inflamando acólitos com um ‘Hierofante em Chamas’ e diz esta que escreve, numa performance como há muito não vista; a máquina Martelo Negro está perfeitamente oleada e mais que pronta para ocupar mais palcos e de novidades a oferenda recaiu para o bem ‘…mal ensaiado e portanto se correr mal que se f***…’  ‘Triunfo da Besta’, que nestas palavras proferidas por The Beyonder ‘…há-de sair no novo álbum quando o Deus quiser…’, juntamente com a já estreada no palco do Morbid Spring Fest de 2017, ‘Rameira Necromante’. Ao palco ainda se chamou Rick Thor para uns mefistofélicos urros em ‘Dethroned Emperor’, versão para o original dos míticos Celtic Frost. Fechou-se esta pungente atuação com um encore duplo em que ‘Equinócio Espectral’ apenas abre vorazmente o apetite por mais suja dissonância melódica.

Após um breve interregno para a forragem e melhor absorção de frescos néctares servidos na Masmorra de Almada, é a vez de os Summon (também eles estreantes de palco) nos envolverem sob o seu negro e pútrido aroma musical, também este versando sobre a Morte, elemento perene e constante das nossas vidas e que paradoxalmente nos proporciona ímpares obras de arte, particularizando-se a dos Summon no seu mais recente registo editado em Abril último, o álbum “Parazv Il Zilitv”. Carpideiras haja que lamentem de forma lúgubre a falta da indicação de tema ‘x’ ou ‘y’ mas a espiral emotivamente sensorial foi mais forte e há peças que não se dividem, o set escolhido foi executado em sintonia pelos 3 elementos e semicerrou um círculo não estanque da obra feita e que deve ser escrutinada por cada um no tempo certo do seu ritual… Desta primeira aparição de Summon fica a beleza mórbida das melodias convergentes com uma ambiência de palco simples mas eficaz numa jovial e fresca segurança de performance que de verde cobre outros com mais suposta estaleca nestes meandros.

Internacionalmente nacionais, o vácuo na sua antítese de plenitude e na perfeita imperfeição da busca pelo inatingível, chega sob a forma do trio Balmog, coletivo já bem conhecedor de luso solo e que não se faz rogado a elevar a fasquia da qualidade deste evento a um patamar ainda tão mais alto. De facto “Vacvvm” sendo o seu mais recém-editado trabalho lateja de matéria-prima que sem pejo nos é remetida numa performance sofrida, intensamente executada e vivida. Do púlpito agiganta-se Balc, força motriz de um remoinho de cadências e alternâncias feitas entre o black e o death; ‘Gignesthai’ tema incluso em “Vacvvm” encerra na sua lírica o resumo em livre adaptação da atuação destes galegos: ‘… então olhei e vi uma tempestade a chegar, como uma grande nuvem feita de chamas de fogo ululando umas atrás das outras rasgando trilhos de imensa luz que brilharam à volta destes negros e pulsantes eletrões…’ .

A noite chegava ao fim da mesma forma com que se iniciara a tarde, com expectância desta vez sobre a última banda a atuar e com a negra moldura humana sem desistências e pronta a receber os sacrílegos sacramentos de Monsenhor Belathauzer, Sumo Pontifice da entidade Filii Nigrantium Infernalium. Destruídas as fronteiras nesta infernal Masmorra, e tendo Jesus como principal patrocinador desta Sumidade musical, as hóstias foram distribuídas em barda e avidamente deglutinadas por este séquito de metalistas. Aproveitando-se desta anunciada Eucaristia e na execução quase integral do recém-editado “Hóstia”, captaram-se os momentos expiatórios dos nossos pecados ante vergastadas sonoras de ‘Vermes de Guerra – Cona Nuclear’ ou ‘Hóstia’ – esta dedicada à Virgem Maria que está dentro de todos nós. Condescendente para com os cansados comungantes, e com a humildade do perdão pelas nossas bifanas e o rogo do nosso pelos seus pregos, ainda se escolheram a dedo três involuntárias pessoas humanas para a perfeita desfocagem e derrapagem sonora do DVD em processo de gravação neste registo dos ainda não falecidos talvez poderem visualizar lá para 2019, sendo mais esta Divina Trindade formada por The Beyonder, Carina ‘Disthrone’ e um anjo caído deste séquito.

A quem faltou por falta de comparência punam-se com a sede e a fome destes rituais até que a Masmorra se volte a abrir.

Agradecimentos devidos às Entidades provocadoras de tão blasfemo acontecimento.

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