Disassembled

Entrevista: Disassembled (Samuel Trindade // Guitarra,Bateria)

Autor: Mário Filipe Pires

Hintf: Em primeiro lugar quero gratular a tua disponibilidade para esta breve troca de palavras. Começando pelo princípio, quem são os Disassembled?

S.T.: Eu é que agradeço desde já o teu convite para esta entrevista, se me perguntasses alguns anos atrás, diria-te que a probabilidade desta acontecer seria muito diminuta (qualquer guitarrista que se preze, tenta colocar diminuta em tudo que pode), isto porque estive muitas vezes para desistir da música e ao acontecer, as únicas entrevistas que teria tido seriam de emprego. Mas respondendo então à tua questão, neste momento Disassembled não é uma banda. Eu formei esta banda com alguns amigos em 1994 nos meus tenros 18 anos e ao longo dos anos, com algum entra e sai de elementos, chego a 2018 e vejo Disassembled como uma teimosia minha. Penso que é a minha zona de conforto para eu me exprimir musicalmente, sem assumir compromissos com ninguém.

Hintf: Esquecendo os primórdios atribulados da banda, podemos considerar que Disassembled é um projecto pessoal onde extravasas outras skills para além do que já desempenhas em Bleeding Display?

S.T.: Sim, penso que posso considerar que é um projeto pessoal pois sempre o direcionei para o que me apetecia fazer no momento. Se nos meus tenros 20 anos eu seguia uma vertente de composição mais bruta e complexa (quem é o puto que não gosta de fazer riffs super complexos para impressionar as garotas e os garotos do bloco de notas???), ao longo dos anos fui amadurecendo e experimentando outras sonoridades, e como compus sempre sozinho, tinha poucas críticas, os meus gatos pouco interagiam comigo, e a minha mãe pedia-me só para baixar o volume, pois ela de música nunca percebeu nada, mas quando assumi que ia avançar com este álbum, “tive de me fazer à vida” para conseguir organizar todas as ideias que foram surgindo e que são os alicerces deste álbum. Numa espécie de 101, aprendi a trabalhar com DAW, programar bateria, etc. A minha entrada em Bleeding Display deu-se na necessidade de colmatar uma baixa na guitarra solo para safar essencialmente o concerto com Obituary, mas desde esse dia e com a minha permanência na banda, todo este background que adquiri com a preparação do álbum de Disassembled, tem se revelado uma mais-valia para todos nós.

Hintf: Para além do vocalista Sérgio Afonso (Bleeding Display) e do baixista Alexandre Ribeiro (Grog // Earth Electric) que juntamente contigo registaram a totalidade do álbum, também participam outros três (3) convidados com créditos firmados no underground Nacional. Como surgiu a ideia e necessidade?

S.T.: No fundo o álbum não teria saído da gaveta se o Roger Esteves não tivesse disposto a escrever as letras. Esta foi a grande necessidade. Se ele não tivesse tido vontade / disponibilidade, o álbum seria um conjunto de ideias que ficariam adormecidas num disco externo à espera de melhores dias… Depois do compromisso assumido por ele, e de ter o Sérgio e o Alex confirmados, comecei a desafiar alguns amigos meus para darem o seu contributo neste trabalho, não tanto por necessidade, mas mais pelo carinho e amizade que tenho com eles. O Pedro D-Void que alguns conhecerão da banda Reaktor, é uma amizade de longa data, somada à sua qualidade como músico, teria de ser uma participação obrigatória. A participação do João Paulo (da banda Fallacy) em trabalhos meus já vem desde o EP “N.V.N.”. Inicialmente estava previsto participar apenas na “Traveller Of Deceit”, mas sempre quis fechar este álbum com chave de ouro, e a ideia de criar um diálogo entre guitarra e baixo “Fretless” não me saía da cabeça. Eu não tenho o vocabulário musical que ele tem (nem dedinhos), e o diálogo que eu idealizei com o “Fretless” do Alex só poderia ser realizado por alguém com a técnica dele, e assim foi, falei mais uma vez com ele, e logo se mostrou disponível. O João Paulo é um dos melhores guitarristas em Portugal, e o trabalho na “Revelations” é a prova disso mesmo. O Miguel Tereso foi uma participação de última hora que ele respondeu de forma exemplar. Tinha ouvido com atenção algumas das suas vocalizações no álbum da banda dele (Primal Attack) achei que seria interessante experimentar e prontamente ele mostrou estar ao nível dos melhores. Não podia ter ficado mais satisfeito com o profissionalismo de todos.

Hintf: Todo o processo de composição e gravação do álbum de estreia “Portals To Decimation” demorou cerca de dez (10) anos a concluir. Alguma razão em especial para tanta demora, ou foi tudo programado e agendado para esta altura?

S.T.: Eu passei o que muitos músicos, principalmente guitarristas, passam hoje em dia. Temos as ideias, mas músicos para ajudar a fechar o ciclo nem sempre estão disponíveis. E os bons geralmente estão ocupados com os seus projetos e declinam amavelmente. Eu próprio passei por isso, a malta ouvia, gostava mas não se queria comprometer. Também não procurei “lá fora”, sempre tentei que as participações fossem nacionais. Eu não preciso de estrangeiros virem fazer o que alguns dos nossos fazem e muitas vezes melhor… e assim se foi arrastando pelos anos…muitas vezes olhava para o projeto aberto na DAW e pensava como é que iria safar me disto, estive para desistir e ir curtir outra cena qualquer, mas voltava sempre ali, e depois regravava um solo, outro ali, e mais um riff e mais uns teclados, mas girava tudo no mesmo, não andava para a frente… Já promovia o lançamento do álbum em 2016, depois passou para o verão de 2017 e agora é que é, e depois não era…enfim, via me no mesmo ciclo, não conseguia marcar com o Sérgio ou com o Alex, ou simplesmente não me apetecia porque estava a chover…a minha mulher tanto me chateou que quase me punha fora de casa para ir gravar o que faltava (seria essa a sua intenção? hmmm), ela percebia que eu não convivia bem com este arrastar do “quase feito”. Depois de ouvir tudinho várias vezes e ter dito “está fechado”, coloquei o streaming a bombar naquele mesmo dia. Já não aguentava aquele peso de já não ser credível para ninguém quando me perguntavam pelo álbum… “Tá quase” passou a ser para mim uma desculpa esfarrapada.

Hintf: Foi imperativo ou apenas estratégico a mudança de estilo musical no novo folego dos Disassembled?

S.T.: A mudança de estilo acompanhou o meu amadurecimento tanto como ouvinte como praticante. Não foi nada forçado, como disse numa resposta anterior, sempre toquei o que me apeteceu e foi essa liberdade que me fez experimentar novas sonoridades. Se aos 20 anos dava me pica tocar riffs complexos com estruturas complexas (vibrava com a complexidade de Suffocation), hoje com 40 já não me vejo focado nesse tipo de sonoridade. Quando descobri Nevermore, percebi que é aquele tipo de sonoridade com o qual me identifico. Se na composição do EP “N.V.N.” explorávamos estruturas rítmicas mais complexas, a partir do EP “2.0” comecei a deixar os riffs “respirarem”, explorei refrões “orelhudos”, solos melódicos, samples, etc. Neste álbum esse tipo de estrutura ficou definitivamente vincado. Posso partilhar contigo que a música “Decode 144” foi feita em 1996 e a “Ecce Calamitas” em 2001, e facilmente consegues perceber que estão um pouco “fora do baralho”. Era o que fazia na altura, mas como vi o potencial delas, não as deixei cair.

Hintf: O que os Disassembled vêm realmente acrescentar ao underground Nacional?

S.T.: Sinceramente estamos todos bastante orgulhosos do resultado final, todos demos o nosso melhor em todo o processo, o Sérgio explorou de forma exemplar um registo fora da sua zona de conforto, o Alex mostrou a sua vertente mais progressiva e sinceramente acho que ficou um trabalho de grande qualidade que se juntou a tantos outros que fizeram subir ao longo dos anos a fasquia no panorama nacional.

Hintf: Quais as principais influências musicais dos Disassembled? Actualmente que bandas destacas do movimento Internacional?

S.T.: Bem, Disassembled sou eu, parece um pouco arrogante dizer isto, mas no fundo a banda não existe, embora tenha contado com o Sérgio e o Alex na realização do álbum (e contarei certamente em trabalhos futuros), a banda como o conceito que temos de banda, não existe. Posto isto, posso destacar que não ouço apenas Metal. O Jazz fusão, a música clássica, entre outros, fazem parte de um leque de influências que me educaram musicalmente e que contribuíram para o que é Disassembled. Como guitarrista, tenho também alguns músicos que me influenciam, colocando o James Murphy (ex-Obituary, ex-Testament, ex-Death) no pedestal e portanto nesse não se mexe, atualmente são vários os músicos que sigo, não vale a pena mencionar todos, mas atualmente ando empenhado em desmontar licks do Brandon Ellis. Mas também depressa me passa a vontade. Bandas internacionais que destaco, já acabaram ou estão adormecidas, mas sempre fui grande fan de Nevermore, Scar Symmetry, Symphony X e bandas do género, para não falar da minha velha costela do Old School Death Metal. Ouço muito Metal dos anos 90, muitos amigos meus gozam comigo, dizem que sou “burro velho” parado no tempo e tentam-me mostrar bandas novas de Metal, mas sinceramente quase tudo soa-me um pouco estéril, com poucos ou nenhuns riffs memoráveis. Talvez o problema seja eu. Mas consigo te destacar algumas bandas recentes que ouço bastante. Por exemplo, Zierlerc Esc, Myrath, e Shokran numa vertente mais progressiva e talvez Aborted, Irreversible Mechanism, e Cytotoxin na vertente mais bruta (mas com riffs que ficam no ouvido).

Hintf: Por outro lado achas que o Progressive Death Metal a nível Nacional está bem representado, ou deveria existir mais bandas praticantes do estilo?

S.T.: Quase todos os concertos em Fests que dou com Bleeding Display seguem uma linha de Metal extremo, onde o Metal progressivo tem pouca expressão, mas conheço algumas e procuro acompanhar os seus trabalhos e concertos. Mas não mencionando nomes, existem de facto algumas bandas com bastante potencial que me despertam interesse e que se vão afirmando lá fora, mas sinto que no geral falta qualquer coisa…sabes quando vais comer fora e a comida vem com pouco sal? Bem, dizem te que o sal faz mal…comes na mesma, mas sabes que terias ficado mais satisfeito com mais umas pitadas de sal 🙂

Hintf: A promoção ao álbum de estreia será apenas “indoor” ou estão previstos concertos de apresentação?

S.T.: A promoção foi prevista em várias fases. Numa primeira fase em formato streaming com o objetivo de chegar a todos de forma imediata enquanto os CD´s estão a ser fabricados. Depois dar continuidade à promoção já com suporte físico e a merch. Este será o primeiro e o único álbum de Disassembled, por isso será talvez uma oportunidade de ter um longa duração da banda como “recuerdo”. Já tenho dezenas de riffs para músicas novas, mas daqui para a frente serão apenas lançadas em formato de EP´s e em digital. Só se houver alguma razão muito forte para o não fazer. Disassembled não é uma banda na sua essência, logo não haverá promoção através de concertos. Foi falado e não está posto completamente de parte, mas a disponibilidade logística, temporal e financeira que exige, colocam essa possibilidade muito remota. Mas o tempo o dirá .

Hintf: Para finalizar, uma palavra para os leitores da Hintf Webzine e para os vossos apoiantes…

S.T.: Sei que me estiquei nas palavras, mas quis abordar pontos que achei importantes para todos vocês que guardam nas vossas gavetas mentais ideias durante anos a fio, e não passam disso mesmo…ideias. Se acreditam nelas – determinação e nunca desistir MESMO!

Obrigado Hinft pela oportunidade!

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