Kino

Entrevista: Kino 

Hintf: Olá Pete, muito obrigada pela disponibilidade para a entrevista. O termo supergrupo normalmente surge-nos em mente quando elementos de diferentes bandas formam um grupo em conjunto. KINO no entanto, parece ser intencionalmente uma banda, mais que um projeto extra… Mas a banda tem estado inativa por 13 anos. O que aconteceu?

Sim, esperávamos mesmo vir a ser uma banda ativa, apesar de, creio eu, no início o Chris Maitland ter saído pelos seus trabalhos de teatro pelo mundo com o We Will Rock You. Então, eu, o John Mitchell e o John Beck fomos em tour com o Bob Dalton na bateria. Depois disso, o John Mitchell juntou-se aos It Bites, os Transatlantic voltaram a reunir-se e estávamos todos ocupados com as nossas bandas principais, no meu caso, claro, os Marillion. Durante a segunda metade do último ano o John M abordou-me com vista a gravar o segundo álbum de Kino e uma grelha de lançamentos foi-nos feita e entregue pela nossa editora InsideOut, e agora após 13 anos temos o nosso segundo álbum.

Hintf: Qual o significado de ‘KINO’? Porquê o nome de KINO?

Quando estávamos a pensar num nome tínhamos uma longa lista de coisas nas quais estávamos sempre a falar e destas o Cinema era uma delas. SIM, essa era a escolha inicial e que iriamos usar. Eu não aceitei muito bem pelo que sugeri Kino, que é a palavra alemã para Cinema. Correu bem e ficou o nome da banda.

Hintf: Como se sentem com este novo regresso e com o vosso novo álbum “Radio Voltaire”?

Estou muito entusiasmado por ver como está a correr com os fans. Tem uma abordagem muito mais moderna e certas coisas diferem do primeiro álbum mas é inerente nas mesmas linhas musicais com os mesmos traços e características com que começamos inicialmente.

Hintf: A banda é diferente de todas as outras em que os elementos constituintes têm participado até aqui. Como definem o género de KINO?

Kino tem uma missão definida. Os traços de Kino são o serem uma entidade musical movida por uma força musical melódica. É tudo sobre colocar o assunto que importa dentro de uma boa e sólida base de canções. Ao ver de muitos o chamar de Pop à música é empobrecê-la, mas uma boa canção é sempre uma boa canção e tem havido muitos grandes exemplos disto, de praticamente todos os géneros musicais.

Hintf: “Pictures” é relançado com uma nova sonoridade. Consolidaram melhor o vosso som agora que há 13 anos atrás?

Eu penso que o primeiro álbum “Picture” era mais peculiar pois não tínhamos ainda uma ideia bem definida no que tocava ao som. Mas depois de gravarmos com um grupo de músicos e termos ido em digressão, acho que a ideia do som de banda a que Kino soava era a de identidade formada. Com “Radio Voltaire” isso cresceu e tornou-se um som mais moderno, com as mesmas óbvias identidades dos seus membros originais.

Hintf: É um álbum que se encaixa no nosso tempo. Continuam com o som progressivo do “Picture”, ou alteraram de alguma forma o sentido musical da banda?

Eu penso que largamente é uma continuação do que começamos quando formamos Kino, mas como disse anteriormente, uma variante mais moderna que a anterior. Os tempos mudam, as coisas seguem em frente e as técnicas de gravação avançam. As ideias são frescas pelo que sim, pode dizer-se que Kino passou por uma espécie de rejuvenescimento.

Hintf: Fizeram o que queriam, certo? Rock Progressivo? Com umas reminiscências de Pop?

Sem dúvida. Acho importante estar à frente do projeto e não estar a adivinhar o que as pessoas possam querer para um álbum. O segundo álbum pode ser uma notável casca de banana. Pelo que escrever e gravar pelas razões certas é imperativo.

Hintf: Têm vários estilos musicais. Como exploram estes diferentes tipos de música? Fazem uma lista do que querem fazer ou surge naturalmente?

Acho que eu e o John e a maioria das pessoas que conheço! Escrever de forma natural. Não nos sentamos para escrever o hit ou a balada ou a longa, épica e progressiva faixa. Lembro-me que a Bjork numa entrevista disse que escrever uma canção era como adormecer. Tu nunca sabes a posição em que vais acordar e com uma canção nunca vais saber como vai acontecer até estar acabada. Apenas te deixas ir e a criatividade lidera o caminho.

Hintf: Não estás preso a uma só banda. Isto dá-te imensa liberdade de criação… És tão criativo. Tens tantos outros projetos, porquê só agora lançar o 2º álbum de KINO?

Não tenho outra resposta para isto a não ser que o John me perguntou se tinha ideias para um segundo álbum, o tempo livre era curto e enquanto eu explicava isto fizemo-lo acontecer. Foi ótimo trabalhar de novo com o John e se posso ser honesto por vezes o curto espaço de tempo disponível pode ser emocionante. Foi apertado e algo stressante mas foi muito bom termos conseguido.

Hintf: Tu escreves música. Escreves só para o projeto KINO ou também pode servir para qualquer outro projeto? Escolhes o que escreves para KINO ou escreves e a escrita pode ser para KINO?

Para ser honesto eu apenas escrevo e a maior parte das vezes deixo a música ditar para onde vai. Tenho imensas canções e algumas outras de folk em acústico também. Mas quando soube que tínhamos agenda para o álbum de Kino concentrei-me mais neste lançamento. Escrevi três das canções para este album. Não sei porquê, tinha-las escrito no final das gravações do “Picture”. Então, ‘Keep The Faith’ era uma canção que eu já tinha e que escrevi para os meus filhos. Quando eles ainda eram um pouco jovens e começaram a ver as notícias e a aperceber-se que o mundo está cheio de problemas por resolver, ‘Keep The Faith’ foi a canção para lhes mostrar que o mundo continua, tu adormeces e acordas a cada novo dia e podes resolver os teus próprios problemas. A ‘Out Of Time’ foi especificamente escrita pois precisava de mais contributo musical neste álbum. Tinha a letra e o refrão parecia cativante pelo que o rearranjei na minha cabeça, enquanto conduzia para o estúdio do John numa manhã.

Hintf: Para ti, o que significam as palavras do nome do álbum “Radio” e “Voltaire”?

“Radio Voltaire”, sendo o nome de uma das canções do álbum e eu sabia que o John estava inclinado para que fosse este o nome do álbum. Quando ele o menciona, tive as minhas dúvidas, pelo que pesquisei um pouco sobre Voltaire, o filósofo. Lendo os seus pensamentos sobre as novas/modernas formas de pensar e o que ele representava na altura em França, então tive que dar a mão à palmatória e achei que era um nome porreiro e que encaixava bem no nosso álbum.

Hintf: Qual é a tua canção preferida do álbum?

A minha canção preferida é provavelmente a ‘Idlewild’. Uma das grandes canções do John. Ele de facto escreve lindas e assombrosas melodias.

Hintf: “Pictures” é muito diferente deste novo álbum. Tem a ver com o grande envolvimento do John neste álbum ou talvez porque tu e o John escreveram as canções em conjunto?

Ambos eu diria. No primeiro álbum passamos muito tempo a delinear canções e a lançar ideias um ao outro até nos sentirmos confortáveis com o que havíamos conseguido e de como tudo soava. Desta vez foi mais fácil trabalharmos juntos neste processo, mas também trouxe canções para contribuir para o já existente grupo delas que o John tinha. Então desta vez escrevemos de forma separada, mas arranjámos muito do material em conjunto. Tendo dito isto, porque não estive muito presente, o John fez a maior parte do trabalho.

Hintf: Sabemos que em ‘Out Of Time’ podemos ouvir um solo de baixo, como surgiu esta ideia?

Out Of Time’ foi uma das canções que me surgiu muito rapidamente. Como mencionei antes, rearranjei uma versão em bruto da estrutura da canção enquanto conduzia a caminho do estúdio do John. Não fizemos demos das canções tal como fizéramos no primeiro álbum. Pelo que estávamos a gravar a ‘Out Of Time’ e a fazer os arranjos e surge naturalmente a vontade de sair da estrutura inicial como se para uma pausa. Tentei alguns acordes alternativos deixando que a música se movesse para um caminho natural mas sem muito sucesso.

Perguntei ao John se ele tinha algo que complementasse a canção, talvez apenas alguns acordes de guitarra. Ele começou a tocar alguns acordes de jazz ao estilo dos do Alan Holdsworth e ambos soubemos que era isso que queríamos ouvir. Trabalhamos num padrão do que gostávamos, e o John no seu modo engenheiro disse que era melhor mandarmos alguns abaixo. Não sei porquê mas quando ele a meteu a rodar comecei a dedilhar estes pequenos riffs de baixo que estavam a buzinar na minha cabeça enquanto ele trabalhava na estrutura dos acordes. Nem tinha bem a certeza se eram algo do baixo ou tocados de um instrumento totalmente diferente, apenas os queria ouvir na faixa. O John gostou da abordagem e isso manteve-se.

Eu toquei ao longo de diferentes fases e de cada vez trabalhávamos um pouco nessas pequenas coisas com base no que eu queria e no que o John ia sugerindo, o que era muito bom mas quase impossível de tocar. Gostava de te dizer que foi gravado em um só take mas com o tempo e o esforço que teríamos que ter, acabamos por o conseguir após cinco tentativas gravadas e eu a deixar que o John as editasse juntas. Ele fez-me soar melhor do que eu estava nesse dia, o que é quase batota, mas é assim que são abordadas a maioria das gravações nos dias de hoje.

Se já tivéssemos a canção escrita e tivéssemos removido essa parte, era algo diferente. Eu teria aprendido as partes e tocado em dois ou três takes em toda a canção, mas como estávamos a escrever e a fazer os arranjos em simultâneo, a gravação é segmentada nas partes em que estamos a trabalhar. A bateria foi gravada depois com o Craig já sabendo a matéria. Ele costuma arrebentar a escala e tocar tudo de uma só vez. Um verdadeiro músico profissional.

Hintf: Como reagiram com a mudança de baterista, passando do Chris Maitland do passado para a atualidade com o Craig Bundell?

O Craig foi de muitas formas a escolha óbvia. Ele é um excelente baterista e um músico muito entusiasta e criativo. Ele entende a música de Kino tendo tocado muito do material do “Picture” comigo e com o John num concerto de caridade há alguns anos atrás. Tornámo-nos grandes amigos e ele traz uma energia muito positiva a todo o projeto. Depois da busca de alma e coração à escrita e aos arranjos musicais, é muito importante ter uma boa e sólida sensação de entusiamo durante as gravações. O Craig é muito bom a encontrar esse ponto e a dar-nos essa boa vibração. Ele dá vida à coisa.

Hintf: Planeiam começar uma tour com KINO?

Adorava tocar ao vivo de novo com Kino, no entanto não me parece que as nossas agendas coincidam muito bem. Estou ocupado com os Marillion, o John tem inúmeros outros compromissos e o Craig está fora com o Steve Wilson. O John Beck eu sei estar a trabalhar com o Fish, pelo que poderá haver um festival aqui ou ali, não sei dizer.

Hintf: Podemos esperar um novo álbum nos próximos 2 ou 5 anos? Ou temos que esperar outra década? Querem isso?

Eu esperaria um novo álbum nos próximos três anos, mas temos que esperar e ver. Com o terceiro álbum gostaria de termos tempo para escrevê-lo juntos tal como fizemos no primeiro.

Hintf: Querem deixar uma mensagem a todos os fãs e aos fãs que vão ouvir o novo álbum?

Gostaria de agradecer por seguirem a minha carreira e espero que gostem do novo álbum de Kino. O John e eu estamos muito orgulhosos dele e acho que este faz Kino ter orgulho. Se são novos a tudo o que Kino ou eu fazemos então confiram o “Picture”, o nosso primeiro álbum, e se gostarem então talvez gostem de algumas das minhas outras músicas. Os Transatlantic são uma abordagem mais clássica ao estilo dos Yes/Genesis com o de Mike Portnoy Neal Morse e Roine Stolt. Ou os Edison’s Children, com o Eric Blackwood. Este último projeto tem ambiências Floyd e densas e heavy Rock raízes combinadas. Não importa o que gostem, ouçam e desfrutem.

Pete.

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