Gloom & The Crows

Entrevista Gloom & The Crows

Por: Miguel Ribeiro

Hintf: Muito obrigado desde já por esta entrevista. Gostaria que voltasses um pouco atrás,e que nos explicasses como surgiu o gosto pela música.

O gosto pela música começou tão cedo que não dá bem para traçar um marco. Os meus pais inscreveram-me numa escola de música para que aprendesse piano aos 4 anos de idade. Era a “mascote”, a mais nova da escola. Não chegava com mãos e pés a lado nenhum mas comecei a aprender prática e teoria e, sobretudo, a desenvolver o treino auditivo. Nessa altura também cheguei a ter aulas de canto. Andei naquela escola vários anos até entrar no Armazém do Rock para continuar a aprendizagem. Por volta dos 12 anos larguei o piano porque descobri uma guitarra acústica do meu pai, meio escondida atrás de qualquer coisa lá para casa. Junto com a guitarra estava um livrinho com músicas e acordes das canções de Abril (Hino de Caxias, Os Vampiros, etc). Foi por aí que, de forma autodidata, comecei na guitarra. Levava-a para a escola, tocava com colegas e a coisa foi-se trabalhando. Mas o gosto pela música esteve sempre presente acompanhando de forma transversal este percurso. Mesmo em pequenina passava imenso tempo a ver videoclips na tv, sempre gostei de ouvir rádio e até as bandas sonoras de desenhos animados ou telenovelas eu cantava.

Hintf: Em que ano nasceu o projecto Gloom & the Crows, como aconteceu?

O projecto começou por ser apenas Eva Gloom sem Crows. Nasceu o ano passado, é pequenino ainda, como vertente acústica em dueto. Comecei a compor e escrever os meus próprios temas, inspirados na minha vida e nas minhas “estórias” e decidi que gostaria de um ambiente íntimo e minimalista para os partilhar. Esta ideia nasceu mesmo da necessidade de catarse na minha vida. Tinha várias feridas para curar e ao compor conseguia cicatrizar cada uma delas mais um pouco. Daí o tom pesado, reflexivo e às vezes um pouco angustiante dos temas. Só este ano senti necessidade de expandir o projecto e de lhe acrescentar outros contributos e sonoridades. Entraram os “Crows”.

Hintf: Quem é a Tatiana Santos (Gloom)? Apresenta-a…

A Tatiana Santos é uma e muitas pessoas. É uma manta de retalhos ou um espelho com muitos pequenos fragmentos. Alguns sólidos, outros como que meio colados a “cuspo”. É uma pessoa que se cansa facilmente e por isso faz imensas coisas distintas para que consiga sempre ser apaixonada por todas elas. É uma pessoa que está em permanente mudança e movimento. Sempre. Umas vezes cheia de força, outras vezes em astenia total. É alguém que passa o dia a sorrir, extrovertida, risonha irónica ou não. Ou afunda em melancolia ao som de Nick Cave ou Legendary Pink Dots enquanto escreve ensaios sobre a fragilidade da vida.

Hintf: Porquê o nome Gloom?

Há uns anos uma foto minha foi capa de um CD de La Chanson Noire – Evergloom. Nessa altura o fotógrafo que a tirou (Paulo F. Mendez) começou a chamar-me “Miss Gloom”. Achei piada ao nome. Pegando no título do CD – Evergloom – decompus esta palavra na forma de um nome próprio e Eva Gloom tornou-se basicamente símbolo de Evergloom. A “eterna escuridão” de Evergloom tornou-se também a escuridão permanente deste alter Ego – Eva Gloom. Para sempre obscura. Para sempre melancólica.

Hintf: Dark Folk / Country,alguma razão em especial?

O estilo está relacionado com as minhas inspirações pessoais. Passei muitos anos a ouvir bandas e nomes como Chelsea Wolf, Scott Kelly, Steve Von Till, Townes Van Zandt… a simplicidade dos temas, dos acordes apaixona-me. A música como base para a declamação. A música como brisa do vento que embala a palavra e a história. O Mundo está cheio de técnica, de virtuosismo, de gente absolutamente brilhante a querer mostrar o que vale e a procurar o seu lugar de glória por baixo dos holofotes vazios do estrelato. Eu só queria contar as minhas histórias  e fazer as pessoas regressarem à raiz, à essência, à simplicidade do minimal, do por do sol no horizonte, do silêncio ao fim do dia, da saudade na madrugada.

Hintf: Como funciona o vosso processo criativo?

De momento todas as músicas são unicamente compostas e escritas por mim. É um processo mais terapêutico do que criativo. Componho quando preciso de terapia. Depois juntamo-nos nos ensaios e fazemos uma Jam sobre as músicas que componho. É nessa altura que cada um dá o seu contributo, sugestão, altera as coisas que tiver de alterar.

Hintf: Quais os principais objectivos?

Os objectivos são mesmo começar a tocar de Norte a Sul. Já toco com bandas de covers mas quando levamos as nossas histórias, a nossa palavra mais longe a realização é diferente. Talvez quem sabe mostrar algumas coisas fora. Existe mercado para Country e Folk em muitos países da Europa e nos EUA sobretudo. Vamos ver.

Hintf: A que outras áreas te encontras ligada?

Sou Psicóloga Clínica, trabalho em Psicologia, Medicina Chinesa, Música e Fotografia (espero não me ter esquecido de nada). E a todas elas me entrego com igual paixão. Gosto de tudo o que faço sem excepção. Sou uma privilegiada.

Hintf: Como vês o actual panorama musical nacional?

O panorama musical não é diferente do panorama artístico no geral. Temos muito poucos apoios à cultura mas a culpa é sobretudo de cada um de nós e não dos Governos. Nós não temos dinheiro para ver artistas nacionais mas enchemos salas a 80€ ou 100€ o bilhete para ver bandas que vêm de fora. Temos músicos profissionais a fazer excelente trabalho em musicais, teatros, etc e a ganhar à bilheteira. Adoramos covers e entretenimento fácil daí o surgimento de tributos como cogumelos. Alguns deles com músicos brutais mas a fazerem trabalho baseado no alheio. Porquê? Porque é realmente mais fácil para ganhar a vida e sustentar uma casa. Compor, criar, fazer de raiz é trabalhoso, é um investimento e as pessoas não valorizam. Vivemos numa era em que só se procura o fácil e o rápido – nas relações, na comida e na arte. Eu sou um bicho raro e não sou assim.

Hintf: Se pudesses ser um animal que animal serias?      

Hmmmm… Talvez um lobo. Ou um gato já que tenho 4 e aprendo todos os dias algo novo com cada um deles.

Hintf: Planos para o futuro…  

Não desistir nunca de sonhar. Mas também não me encostar aos sonhos. Sonhar e fazer. É só isso que espero da vida e do futuro e, claro, ter saúde física e mental para ir sempre conseguindo levar isto a cabo.

Hintf: Por fim, deixa uma palavra a quem vos segue…

Apoiem o trabalho criativo. Apoiem a originalidade. Sigam o que de verdadeiramente bom se faz em Portugal (e não estou a falar do meu trabalho), sigam os músicos, os teatros, os actores, os musicais. Vejam o que está ao vosso dispor. Encham casas. Divulguém. Portugal é um país de artistas. Que se acabe a necessidade de ter de sair do país para que seja dado o real valor ao que por cá se faz de bom. E criem também, vocês próprios. Pintem, escrevam, componham… movimentem a vossa energia. Usem as emoções que sentem, as vossas histórias, as vossas dores. Transformem cada lágrima numa obra de arte. Cada aperto no peito em algo bonito.

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