Francesca Bonci

Entrevista Francesca Bonci

Por: Lígia Ferreira

Hintf:  Olá Francesca, é um prazer poder entrevistar-te!  Quem é Francesca Bonci? Fala-nos um pouco sobre ti e o conceito por detrás do teu trabalho.

Olá Lígia, Obrigada por me dedicarem este espaço!

Nunca fui muito boa a falar sobre mim, mas vou tentar …

Nasci no norte da Itália, mas quando era adolescente, mudei-me para o centro (Região Marche). A minha mãe é natural da Tailândia e o meu pai sempre viajou muito por questões de trabalho. E muitas vezes eu também ia. Tudo isso gerou em mim uma abertura em todos os aspectos da vida e um amor incondicional pelas diferentes línguas e culturas. E, consequentemente, um amor pelas viagens. Comecei a expressar-me artisticamente ainda era muito pequena e manipulava superfícies e materias para tentar transformar os meus sentimentos em imagens e cores – Gosto de dizer que comecei a desenhar e escrever antes de falar. Após a escola secundaria, fiz um curso na Academia de Belas Artes numa secção de multimédia e design Visual e aprendi a tornar as minhas inclinações artísticas mais contemporâneas através da tecnologia e a encontrar novas formas de combinar música e arte. Através da web, consegui criar conexões e levar o meu trabalho artístico para fora da Itália. O meu trabalho começa a partir de uma base de instinto e emoção: tento visualizar o que sinto e o que a música ou o som me transmitem, criando algo empático e original. Sempre com um aspecto bastante low-fi. É por isso que eu não tenho grandes influências, não me inspiro em alguém ou em algo necessariamente. É óbvio que o que eu amo às vezes pode ser encontrado nas minhas criações (Movimento Fluxus, o imaginário cyberpunk, a beat generation, o design tipográfico do David Carson, Open Titles dos anos 50, ficção científica, Gibson, Philip k Dick), mas não de forma premeditada.

Uma coisa que me interessa muito no meu trabalho é a conexão entre as pessoas e a divulgação espontânea da arte. Por isso prefiro contextos pequenos e underground.

Hintf: Nos últimos anos tens participado em vários festivais pela Europa e trabalhado  com algumas bandas, tal como Show Me A Dinosaur, fazendo artes visuais para as suas actuações ao vivo e vídeos. Em que te inspiras para criar o teu trabalho?

Pois é. Eu tive muitas experiências maravilhosas na Europa e conheci pessoas fantásticas.

Como eu disse antes, não tenho propriamente fontes de inpiração.

O meu processo criativo nasce no principio, quando eu escolho trabalhar com uma banda em vez de outra. Ou escolho um evento em vez de outro. Se o material com o qual eu tenho que trabalhar não me emociona, eu nem começo. Se eu gosto e isso dá-me emoções, eu encontro inspiração naquilo que eu sinto. Como ponto de partida. Então eu falo com os artistas para entender completamente o significado por trás da sua música e ver como interpretar o conceito das canções por exemplo.

Hintf: Sei que em Abril irás participar mais uma vez no Münchner Science & Fiction Festival como VJ e artista visual residente. Que surpresas tens preparadas para nós?

Sim, este ano vou ter muito mais espaço dentro do festival e poderei cuidar da visualização de dois projetos muito interessantes provenientes do Mónaco. A banda electrofunky “Marsellus Moon Archestra” e dois músicos muito bons, Dan Cotletto e Katrin Sofie F., que para a ocasião se unirão  num novo projeto ad hoc para o festival. O festival da matriz científica sempre propõe temas muito interessantes e inovadores em termos de grande e longo show muito engraçados e sarcásticos com workshops e conferências para adultos e crianças. Preparei dois grandes conjuntos de imagens conceituais depois de entender o conceito por trás da performance ao vivo e uma série de clipes para a jam session que o Marsellus vai ter além do live. Tudo muito colorido e super sci-fi.

Hintf: Tens trabalhado maioritariamente com projectos de Post Rock, coincidência ou é a tua área de predilecção?

É verdade, trabalhei muito com o post rock. Não foi realmente uma coincidência, digamos que foram uma série de circunstâncias, também ajudado pelo facto de que é um tipo de música que se presta mais à visualização ao vivo. Muitos anos atrás eu fiz alguns vídeos para um artista que fazia parte desse contexto e que tinha muitos contactos com bandas e músicos nas redes sociais. Os meus vídeos começaram a girar e o meu nome também e então comecei a ser contactada. Até hoje, eu tenho mais seguimento no exterior do que na Itália. Não é bem a minha area de predilecção mas aquela que mais está interessada no meu trabalho, sobretudo nos ultimos anos e na parte live. Mas na totalidade fiz muitos vídeos no campo mais rock e de composição.

Hintf: Quais são os teus planos para o futuro? Qual o passo seguinte que gostarias de dar?

Planos para o futuro tenho muitos. Não muito diferentes daqueles que eu fiz até agora na verdade. Se calhar dedicar cada vez mais tempo  a isso. Queria continuar a levar a minha arte comigo pelo mundo tanto como na Itália, se calhar melhorar as técnicas e estudar istrumentos diferentes para performances live.  E encontrar umas bandas mais fixas com as quais trabalhar ao vivo em maneira mais continua em vez de eventos isolados.Também como designer, estou a tratar do grafismo de merchandising de algumas bandas. ETambém tenho a minha própria marca de design artesanal, sempre ligada à música, com a qual eu projectei t-shirts, gráficos de discos e pedais de efeito artesanal. Gostaria de fazer mais isso.

Hintf: Neste momento tens a decorrer uma campanha de crowdfunding, fala-nos sobre ela…

Eu decidi começar uma campanha de crowdfunding por razões pessoais e económicas. Muito simplesmente “Continuar a produzir a minha arte”.  Eu pensei muito sobre isso porque não gosto de pedir ajuda e mostrar as minhas dificuldades e  não sei como isso vai correr. Tenho um computador antigo que torna o meu trabalho muito lento e para jà não posso comprar um novo. O trabalho que faço é bom, mas não particularmente lucrativo, especialmente para mim, que não o faço principalmente pelo ganho. Então tentei o crowdfunding.O portal que escolhi para a campanha não prevê recompensas. É mais uma espécie de doação. Mas ainda disponibilizei algum trabalho que eu possa fazer em troca de doações maiores. Desde um artwork original para camisolas/merchandising a 80 euros até um visual de 40 minutos por 500 euros.  Mas gosto muito do espírito do crowdfunding e espero que  corra bem , espero sair desta situação dificil  para não pôr fim à minha atividade.

Hintf: Se pudesses escolher qualquer artista para trabalhar contigo, quem seria?

Há alguns artistas que eu considero incríveis a nivel artístico como Fisherspooner, IAMX mas claro que nunca eu poderia pensar em trabalhar com pessoal desse nivel. Actualmente gosto muito de músicos como Ben Frost , Cristobal Tapia de Veer mais conhecidos por terem feito banda sonoras para series como Dark e Utopia, mas que são tambem grandes compositores.  Mas há tambem  muitas bandas underground  menos conhecidas que eu gosto e como já disse vou preferir sempre trabalhar com eles.

Hintf: Define o teu trabalho  numa palavra…

Emocional.

Hintf: Nasceste em Itália mas viveste sete anos em Lisboa, o que te trouxe até cá?

Oh Lisboa… que saudades! Uma das experiências mais plenas e lindas da minha vida.Não sei dizer realmente o que me trouxe para cá… conheci uma cultura linda e aberta e aprendi um idioma ainda mais lindo, fiquei com amizades grandes e aprendi a viver mais devagar e mais intensamente. e agora posso ler o Livro do Desassossego – um dos meus livros favoritos –  e saber o que o Pessoa sentia realmente! O que deixei lá foi certamente o coração.

Hintf: Levas boas recordações do tempo que cá passaste, que achaste da nossa cultura, gastronomia…um pouco diferente da Itália?

Sim, trouxe apenas coisas bonitas dessa experiência.

Na verdade, lindas. Como eu disse, um pequeno pedaço do meu coração ainda está lá e sei que ele permanecerá lá para sempre.

Tenho um bom feeling com os portugueses em geral, sempre muito gentis e respeitosos.

E adorei  viver lá. Uma coisa que não sabem se calhar é que durante 4 anos eu fui cozinheira num restaurante Italiano que abri com um rapaz que era meu companheiro naquela altura. Foi uma experiência muito importante e profunda e conheci muita gente que depois se tornou minha amiga e  que até agora temos contacto. Os portugueses gostaram muito da minha cozinha.

A cultura não é tão diferente da Itália em muitas coisas, mas notei que há vontade de crescer e de estar a passo com os tempos, em comparação com a Itália. E há tanta música, tanta arte e tanta vida!

A cozinha é excelente e barata. E eu amo essas tasquinhas!

Hintf: Gostarias de deixar uma mensagem aos nossos leitores?

Eu não sei … se calhar eu posso dizer que podem conhecer o meu trabalho e através dele muita música boa que talvez não conheçam. E que também estou a trabalhar para chegar a Lisboa ou a Portugal em breve. Tenho muitos bons contactos com  bandas portuguesas com as quais gostava mesmo de colaborar.

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